sábado, 24 de outubro de 2026
CIDADES

O que falta para transformar registros de queimadas em uma rota de fumaça até Manaus

A queda de 26,9% nos focos de calor do Amazonas entre agosto e setembro de 2026 não ocorreu de forma uniforme. Enquanto municípios do sul registraram recuo, localidades próximas de Manaus e do setor leste tiveram alta. O levantamento indica áreas para monitoramento, mas não confirma a origem da fumaça na capital.
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A identificação da origem da fumaça em Manaus exige mais do que a contagem estadual de queimadas. Um levantamento da NEX Hub de Análises Estratégicas mostra que o Amazonas teve redução de 26,9% nos focos de calor entre agosto e setembro de 2026, na comparação com os mesmos meses de 2023. Ao mesmo tempo, municípios próximos da capital e localidades do setor leste registraram aumento nas detecções.

O estudo contabilizou 65.610 focos no Amazonas em 2026, contra 89.758 em 2023. A diferença foi de 24.148 registros a menos no bimestre. A distribuição territorial, porém, foi desigual: 16 dos 62 municípios amazonenses apresentaram crescimento, entre eles Manacapuru, Iranduba, Itacoatiara, Rio Preto da Eva, Careiro e Manaquiri.

O cruzamento com mapas meteorológicos indica que parte dos ventos observados tem orientação compatível com possíveis corredores de transporte de ar até Manaus. As imagens, no entanto, não permitem confirmar o deslocamento das partículas nem atribuir a fumaça a um município específico.

Queda no total estadual reúne cenários diferentes

A redução registrada no Amazonas foi influenciada principalmente pelo recuo de municípios com grande número de focos em 2023. Lábrea passou de 10.486 para 4.094 detecções, queda de 61%. Em Humaitá, o total caiu de 5.314 para 1.530, redução de 71,2%.

Canutama registrou diminuição de 3.644 para 1.013 focos, baixa de 72,2%. Boca do Acre passou de 5.080 para 2.107, recuo de 58,5%. Também houve redução em Novo Aripuanã, Manicoré e Tapauá, com quedas de 23,7%, 46,6% e 68,9%, respectivamente.

Apuí seguiu em sentido contrário. O município passou de 10.342 para 11.033 focos, aumento de 6,7%, e apresentou o maior total do estado no período de 2026.

Esse contraste explica por que o número geral do Amazonas não é suficiente para avaliar a presença de fumaça em Manaus. Uma redução concentrada em áreas distantes pode diminuir o total estadual sem impedir episódios de poluição na capital. Da mesma forma, o aumento em municípios próximos pode ampliar o potencial de contribuição dessas áreas quando a circulação atmosférica favorece o transporte.

Entorno da capital registra aumento

Na região intermediária de Manaus, divisão territorial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que abrange uma área maior que o entorno imediato da capital, o número de focos subiu de 18.231 para 18.980. O crescimento foi de 4,1%.

Na região intermediária de Parintins, as detecções passaram de 10.290 para 10.686, alta de 3,8%. Os dados mostram que o comportamento das queimadas variou entre as regiões do estado, mesmo com a queda no resultado agregado.

Manacapuru teve o maior aumento absoluto entre os municípios analisados. Foram 2.730 focos entre agosto e setembro de 2026, contra 1.230 no mesmo período de 2023. O acréscimo foi de 1.500 detecções, equivalente a 122%.

Iranduba apresentou a maior variação percentual, ao passar de 192 para 657 focos, aumento de 242,2%. Em Caapiranga, o total subiu de 946 para 2.248, alta de 137,6%.

Outros municípios considerados relevantes para a análise também registraram crescimento. Itacoatiara passou de 1.710 para 1.962 focos, aumento de 14,7%. Careiro subiu de 1.236 para 1.442, alta de 16,7%, enquanto Manaquiri avançou de 1.247 para 1.328, crescimento de 6,5%.

Rio Preto da Eva teve aumento de 241 para 327 detecções, alta de 35,7%. Nova Olinda do Norte passou de 992 para 1.282, crescimento de 29,2%. Borba subiu de 1.550 para 1.771, aumento de 14,3%. Urucurituba registrou a maior alta percentual entre esses municípios, de 457 para 1.192 focos, crescimento de 160,8%.

A própria Manaus também apresentou aumento. O município passou de 490 para 557 focos, alta de 13,7%. Por isso, a avaliação de possíveis fontes de fumaça precisa considerar também ocorrências dentro do território da capital.

Setor leste aparece como área para acompanhamento

Os mapas do Windy analisados no levantamento mostram traços de circulação atmosférica no corredor entre Parintins, a região de Urucará, Itacoatiara e Manaus. A orientação aparece aproximadamente de leste-nordeste para oeste-sudoeste.

Esse alinhamento é compatível com uma possível circulação do setor leste em direção à região de Manaus. Se as partículas estiverem seguindo para oeste ou oeste-sudoeste, queimadas situadas nesse corredor podem contribuir para o transporte de fumaça até a capital.

Itacoatiara ganha relevância nesse cruzamento por estar a leste de Manaus e ter registrado 252 focos a mais no bimestre de 2026. O município teve crescimento de 14,7%. Outras localidades do setor leste também tiveram alta, como Urucurituba, com aumento de 160,8%, e Boa Vista do Ramos, que passou de 690 para 1.022 focos, alta de 48,1%.

Esses dados apontam áreas que podem ser acompanhadas em uma investigação sobre a fumaça, mas não comprovam que partículas produzidas nesses municípios tenham chegado à capital. A confirmação dependeria do sentido efetivo dos ventos e da trajetória das plumas no período correspondente às queimadas.

Possível contribuição pelo sudeste depende do fluxo de ar

Os mapas também mostram traços diagonais na área entre Borba e Itacoatiara. Se o deslocamento ocorrer do sudeste para o noroeste, a circulação poderá favorecer a aproximação de ar proveniente de áreas situadas a sudeste de Manaus.

Borba e Nova Olinda do Norte tiveram aumento nas detecções. No primeiro município, o total passou de 1.550 para 1.771 focos. No segundo, subiu de 992 para 1.282.

Autazes e Careiro da Várzea também são relevantes para a leitura geográfica desse setor, embora tenham registrado queda. Autazes passou de 4.372 para 2.829 focos, recuo de 35,3%. Careiro da Várzea caiu de 1.603 para 1.428, redução de 10,9%.

A diminuição não elimina a possibilidade de contribuição dessas áreas em determinados episódios. Os dois municípios mantiveram quantidade significativa de registros, e o transporte da fumaça depende das condições atmosféricas no momento dos incêndios.

Careiro da Várzea apresentou a maior densidade de focos por área municipal no levantamento de 2026, com 543,5 detecções por 1.000 quilômetros quadrados.

Municípios a oeste exigem outra configuração meteorológica

O crescimento observado em Manacapuru, Iranduba e Caapiranga precisa ser analisado em conjunto com a posição geográfica dessas localidades. Os municípios ficam em setores a oeste e sudoeste de Manaus.

Para que a fumaça dessas áreas alcance a capital, é necessário que a circulação atmosférica venha desses setores ou que as trajetórias do ar conduzam as partículas até a cidade. O alinhamento identificado no corredor leste, portanto, não explica sozinho uma eventual contribuição de Manacapuru ou Iranduba.

A distinção é importante porque os dados cumprem funções diferentes. O levantamento municipal indica onde os focos aumentaram ou diminuíram. Os mapas meteorológicos ajudam a verificar em quais condições a fumaça poderia se deslocar entre essas áreas e Manaus.

Histórico aponta predominância de ventos de leste e nordeste

Um estudo apresentado no Congresso Técnico Científico da Engenharia e da Agronomia, com informações da estação automática do Instituto Nacional de Meteorologia em Manaus entre 2012 e 2019, identificou predominância de ventos de leste e nordeste nos períodos seco e chuvoso.

Na meteorologia, a direção do vento indica de onde ele vem. Um vento de leste, portanto, sopra do leste para o oeste. Esse padrão histórico torna plausível o acompanhamento de municípios situados a leste e nordeste da capital como possíveis áreas de contribuição.

O comportamento não é permanente. Variações na circulação regional, chuvas e influências locais podem modificar o fluxo. O estudo também menciona a possível influência de brisas fluviais e diferenças entre os ventos próximos à superfície e aqueles registrados em níveis mais elevados da atmosfera.

Imagens estáticas não confirmam a trajetória da fumaça

As capturas do Windy usadas na análise precisam ser interpretadas com cautela. Uma das imagens está na camada de temperatura, enquanto a outra mostra acumulação de vento. As cores não representam concentração de fumaça nem qualidade do ar.

O indicador de 18 nós, equivalente a aproximadamente 33 quilômetros por hora, refere-se ao ponto e à camada selecionados no mapa. O valor não deve ser interpretado como a velocidade atual do vento em Manaus.

Os traços brancos permitem visualizar o alinhamento do fluxo, mas uma captura estática não mostra com segurança para qual direção as partículas estão se deslocando. Também não há indicação legível de data, horário e configuração completa da previsão.

Além disso, os mapas meteorológicos não demonstram, isoladamente, que o fluxo representado corresponda às condições atmosféricas existentes durante os incêndios registrados em agosto e setembro de 2026.

O alinhamento observado é compatível com a hipótese de transporte de fumaça até Manaus, especialmente pelo setor leste e, sob circulação favorável, pelo sudeste. A confirmação exige a combinação de animações dos ventos, imagens das plumas de fumaça e dados meteorológicos referentes ao mesmo período das ocorrências.

Comparação considera apenas agosto e setembro

O levantamento compara os meses de agosto e setembro de 2023 com os mesmos meses de 2026. Os dados de outubro de 2026 ainda não estavam disponíveis no material, o que impede a comparação entre trimestres completos.

Em 2023, outubro acrescentou 31.782 focos ao levantamento, elevando o total de agosto a outubro para 121.540 detecções. O mês respondeu por aproximadamente 26,1% do trimestre.

O estudo contextualiza 2023 como um período marcado por El Niño e seca severa. A comparação apresentada mede a variação das detecções, mas não determina isoladamente a participação de fatores climáticos nem de ações de prevenção e combate.

Foco de calor não mede sozinho o volume de fumaça

A metodologia soma detecções por satélite organizadas por município e exportadas do Painel do Fogo do Sistema de Proteção da Amazônia (SIPAM). As informações territoriais do IBGE foram utilizadas para calcular a densidade por 1.000 quilômetros quadrados.

Um foco de calor não corresponde necessariamente a um incêndio individual. Uma mesma ocorrência pode gerar múltiplas detecções, e o indicador não mede diretamente a área queimada nem o volume de fumaça produzido.

Assim, os dados sustentam uma hipótese de trabalho: o aumento dos focos em parte do entorno e do setor leste de Manaus pode contribuir para episódios de fumaça quando os ventos favorecem o transporte até a capital, mesmo com a redução no total estadual.

Para determinar quais municípios contribuíram em cada episódio, será necessário cruzar a localização e o horário das detecções com imagens das plumas e trajetórias do ar em diferentes altitudes. É essa combinação que pode transformar registros dispersos de queimadas em uma avaliação mais precisa sobre a chegada da fumaça a Manaus.