A saúde mental em Mato Grosso do Sul passou a ocupar espaço maior nas políticas públicas do Estado, com medidas voltadas à expansão dos serviços, à regionalização do atendimento e à prevenção de situações de crise. As ações estão concentradas na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), que reúne unidades básicas de saúde, Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), hospitais, serviços de urgência e outros equipamentos do Sistema Único de Saúde (SUS).
Segundo informações divulgadas pela Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso do Sul, o Estado encerrou 2025 com 40 CAPS em funcionamento. Em 2022, eram 33 unidades. O planejamento estadual prevê a ampliação para 56 CAPS até 2029, com a expectativa de levar atendimento especializado a 69 municípios e alcançar cobertura de aproximadamente 87% do território estadual.
Além da expansão física da rede, as iniciativas incluem a capacitação de profissionais, a organização de fluxos para emergências psiquiátricas, o fortalecimento do cuidado regionalizado e a reinserção social de pessoas que passaram por longos períodos de internação.
O que mudou na rede de saúde mental de Mato Grosso do Sul
Uma das principais frentes de trabalho é a regionalização da assistência. A proposta é organizar os serviços para que moradores de municípios menores tenham acesso ao cuidado em saúde mental sem depender, sempre, de deslocamentos para os grandes centros.
O Plano de Ação Regional da Rede de Atenção Psicossocial, aprovado em 2025, prevê a criação de novos CAPS, unidades regionalizadas, Serviços Residenciais Terapêuticos e uma Unidade de Acolhimento para adultos. A estrutura planejada deve ampliar a oferta de acompanhamento contínuo para pessoas em sofrimento psíquico intenso e para quem enfrenta problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas.
Na prática, a rede funciona por meio da articulação entre diferentes serviços. A Unidade Básica de Saúde costuma ser a porta de entrada mais próxima da população. Quando a equipe identifica uma demanda que exige acompanhamento especializado, pode orientar o usuário para um CAPS, ambulatório ou outro ponto da rede.
O Ministério da Saúde explica que os CAPS funcionam em regime de porta aberta. Isso significa que a pessoa pode procurar diretamente a unidade de referência para o primeiro acolhimento, sem necessariamente ter uma consulta marcada ou um encaminhamento prévio.
Quais serviços fazem parte da Rede de Atenção Psicossocial
A RAPS foi criada para oferecer cuidado integrado a pessoas com sofrimento ou transtorno mental, incluindo casos relacionados ao uso prejudicial de álcool e outras drogas. O atendimento não se limita a consultas médicas e pode envolver acompanhamento psicológico, enfermagem, terapia ocupacional, assistência social, atividades em grupo, orientação a familiares e ações de reinserção comunitária.
Os principais pontos de atendimento são:
- Unidades Básicas de Saúde: fazem o acolhimento inicial, acompanham casos de menor complexidade e encaminham o usuário quando necessário.
- CAPS: atendem pessoas com sofrimento psíquico intenso ou persistente e usuários que precisam de acompanhamento especializado relacionado a álcool e outras drogas.
- CAPS Infantil: são voltados a crianças e adolescentes que precisam de cuidado especializado em saúde mental.
- CAPS AD: oferecem atendimento a pessoas que enfrentam problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas.
- Unidades de urgência e emergência: acolhem situações que exigem atendimento imediato, inclusive crises psiquiátricas e risco de suicídio.
- Serviços Residenciais Terapêuticos: apoiam a moradia e a reinserção social de pessoas que passaram por longas internações e não contam com suporte familiar suficiente.
O objetivo é evitar que a internação seja a única resposta para o sofrimento mental. O cuidado deve ocorrer, sempre que possível, no território onde a pessoa vive, com acompanhamento contínuo e participação da família e da comunidade.
Como buscar atendimento pelo SUS
O primeiro caminho é procurar a Unidade Básica de Saúde do bairro ou a Secretaria Municipal de Saúde. A equipe pode avaliar a situação, iniciar o cuidado e indicar o serviço mais adequado. Em muitos casos, a UBS acompanha o usuário em conjunto com outros pontos da rede.
Também é possível procurar diretamente o CAPS da região. No acolhimento inicial, a equipe verifica a necessidade apresentada e define se o caso será acompanhado pela própria unidade ou encaminhado para outro serviço. O atendimento é gratuito e segue os princípios de universalidade, integralidade e equidade do SUS.
Para localizar o serviço mais próximo, o morador deve consultar a Secretaria de Saúde do município, a unidade básica de referência ou os canais oficiais da prefeitura. A disponibilidade, o endereço e o horário de funcionamento podem variar de acordo com a cidade e com o tipo de CAPS.
É recomendável levar documento de identificação e Cartão SUS quando esses documentos estiverem disponíveis. No entanto, a falta de algum documento não deve impedir a busca por orientação em uma situação de sofrimento intenso ou urgência. A equipe do serviço poderá informar como regularizar o cadastro e quais são os próximos passos.
Ações de prevenção do suicídio
Outra frente destacada pelo Estado é a prevenção do suicídio. Em 2025, o Comitê Estadual de Prevenção ao Suicídio retomou reuniões com representantes da saúde, educação, segurança pública, Justiça, universidades, conselhos profissionais e municípios.
Entre os resultados está a elaboração de uma nota técnica com orientações para o atendimento de casos de tentativa de suicídio. O documento busca organizar o acolhimento, o manejo da crise e os encaminhamentos necessários, aproximando os serviços de saúde, urgência e emergência.
A organização de um fluxo estadual pretende reduzir falhas na transição entre os serviços. Depois de um atendimento emergencial, a pessoa precisa ter continuidade do cuidado, com acompanhamento na rede municipal e avaliação das condições familiares e sociais que podem influenciar a recuperação.
A prevenção também depende da identificação de sinais de alerta. Mudanças bruscas de comportamento, isolamento, desesperança, falas sobre morte, despedidas ou distribuição de objetos pessoais devem ser levadas a sério. A recomendação é ouvir sem julgamento, não deixar a pessoa sozinha em uma situação de risco e procurar ajuda profissional.
O que fazer em uma situação de crise
Em casos de risco imediato, tentativa de suicídio, intoxicação, agitação intensa, perda de contato com a realidade ou ameaça à integridade física, a orientação é procurar uma Unidade de Pronto Atendimento, pronto-socorro ou acionar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência pelo número 192.
O CAPS também pode acolher situações de crise, conforme o tipo de unidade e o horário de funcionamento. Quando o quadro exige atendimento imediato ou suporte hospitalar, a equipe pode articular o encaminhamento para a urgência e emergência.
Para quem precisa conversar e busca apoio emocional, o Centro de Valorização da Vida oferece atendimento gratuito pelo número 188, 24 horas por dia, todos os dias. O serviço é sigiloso e não substitui o atendimento médico, psicológico ou de emergência, mas pode ser utilizado como apoio em momentos de sofrimento. Mais informações estão disponíveis no site oficial do CVV.
Desinternação e reinserção social
O Estado também passou a fortalecer estratégias de desinstitucionalização. Em 2025, a Secretaria de Estado de Saúde informou a integração da Estratégia de Acompanhamento de Pessoas em Desinstitucionalização à Rede de Atenção Psicossocial.
A iniciativa busca apoiar a saída de pacientes que permanecem internados por longos períodos e criar condições para que essas pessoas retomem a vida em comunidade. O processo pode envolver moradia assistida, acompanhamento clínico, apoio social, reconstrução de vínculos familiares e acesso a atividades de trabalho, educação, cultura e lazer.
A proposta está alinhada à política de cuidado em liberdade e à substituição de internações prolongadas por serviços territoriais. A internação pode ser necessária em determinadas situações, mas deve ser avaliada de acordo com a condição clínica e integrada a um plano de continuidade do cuidado.
Qual é o papel das famílias
Familiares e pessoas próximas podem participar do cuidado, desde que respeitados a autonomia, a privacidade e os direitos do usuário. A família pode ajudar a identificar mudanças de comportamento, acompanhar consultas, organizar o uso de medicamentos quando houver prescrição e informar à equipe situações que dificultem a continuidade do tratamento.
Também é importante evitar julgamentos e cobranças simplistas. Frases que minimizam o sofrimento podem afastar a pessoa da ajuda. Em vez disso, a recomendação é demonstrar disponibilidade, perguntar como ela está e oferecer apoio para buscar atendimento.
O cuidado dos familiares também merece atenção. A RAPS pode orientar sobre grupos, acompanhamento e outros serviços disponíveis no município. Cuidar de alguém em sofrimento mental pode gerar sobrecarga, e reconhecer essa necessidade faz parte da proteção da própria família.
Como acompanhar as ações no Estado
Informações sobre serviços, estabelecimentos e iniciativas da saúde pública podem ser consultadas no Portal de Serviços em Saúde de Mato Grosso do Sul. O cidadão também pode procurar a Secretaria Municipal de Saúde, a UBS mais próxima ou os canais institucionais da Secretaria de Estado de Saúde.
A ampliação da rede não elimina as diferenças entre os municípios. Por isso, horários, modalidades de CAPS, formas de acolhimento e disponibilidade de profissionais podem variar. Antes de se deslocar, é recomendável confirmar o funcionamento da unidade local.
Com a expansão dos CAPS, a criação de fluxos para crises e a integração entre serviços, Mato Grosso do Sul busca tornar o atendimento em saúde mental mais próximo, regionalizado e contínuo. Para a população, o principal passo é não esperar que o sofrimento se agrave: a ajuda pode ser buscada na UBS, diretamente no CAPS ou em uma unidade de urgência, conforme a gravidade da situação.








